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Arquivos Impossíveis. Uma agenda de pesquisa exploratória sobre o que fica de fora da memória e o património

Investigador responsável: Ruy Llera Blanes

Grupo de investigação: Desafios Ambientais, Sustentabilidade e Etnografia


Palavras-chave

Património | Políticas Públicas | Obliteração | Conflito

Instituição financiadora

Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT)

Parceiros

IHC-NOVA FCSH, IN2PAST

Estado

Aberto

Data de início

01-02-2026

Data de fim

31-07-2027

Referência

2024.13762.PEX


Abstract

Nos últimos anos, Portugal e Espanha têm assistido a um desenrolar público e ao mesmo tempo controverso de políticas de memória sobre os seus passados violentos (coloniais, fascistas). Se em Portugal as atuais comemorações dos 50 anos da Revolução dos Cravos e da independência das suas antigas colónias suscitaram debates sobre processos hegemónicos e oficiais versus alternativos de patrimonialização e o silenciamento de memórias do seu passado colonial, em Espanha a trajetória social da Lei da Memória Histórica desde a sua implementação em 2007 tem sido marcada por diferentes instâncias de disputa política e “lawfare”. Isto recorda-nos que a memória não é apenas (no sentido freudianos e sociológico) um território contestado, mas também que os processos de memória e herança são intervenções e mobilizações contingentes em conjuntos "disponíveis" determinados por hegemonias políticas (Samuels 2018). A questão mantém-se pertinente e ativa: o que motiva as mobilizações para preservação e arquivo (Derrida 1996), e que mobilizações se tornam hegemónicas ou marginalizadas no campo da memória que se gera? E mais importante, quais os custos epistemológicos, políticos e éticos de tais mobilizações? Que memórias se tornam invisíveis/indetetáveis/impossíveis no processo? Esta formulação equipara, portanto, os processos de memória e património, em particular os relacionados com a violência do passado, a mobilizações sociais necessariamente conflituosas que incorporam problemas de justiça, direitos humanos e reparações. A este respeito, embora a contribuição do património para a paz, a democracia e os direitos humanos tenha sido recorrentemente formulada através de canais políticos e académicos desde a sua formulação no âmbito da UNESCO, existe ainda um conhecimento e uma compreensão insuficientes dos contextos em que a patrimonialização contribui para a injustiça social através de processos de imposição, hegemonia, amnésia e silenciamento – em particular no que diz respeito às memórias de violência e trauma. Neste projeto, combinando abordagens empíricas e experimentais de laboratório, uma equipa de antropólogos, historiadores, arqueólogos, e especialistas em estudos visuais e arte/literatura propõe-se abordar o problema propondo uma investigação experimental sobre o património como uma mobilização sociopolítica, com foco no que é "deixado de fora" dos processos públicos e privados de memorialização e memorialização. Olhando especificamente para a herança de contextos violentos e traumáticos nos contextos pós-coloniais e pós-autoritários de Portugal e Espanha, perguntamos: até que ponto, e em que termos, tais processos de memória implicam dinâmicas de amnésia, silêncio, tabu ou obliteração epistémica? E quais as consequências deste esquecimento em termos de justiça social, reparações e direitos humanos? A nossa proposta situa-se então na intersecção entre memória e epistemologia, explorando as "histórias disponíveis" (Koselleck 2004) de passados violentos e as suas trajetórias sociais no presente. Para isso, promovemos um debate interdisciplinar em torno do conceito de trabalho de ‘arquivos impossíveis’, com o qual exploramos o que é ‘deixado de fora’ dos processos de património e memorialização. Desenvolvemos pesquisas de estudos de caso empíricos em Portugal, Espanha e os PALOP (atualmente em processo de celebração dos 50 anos da Revolução dos Cravos e das independências africanas e, posteriormente, realizámos um brainstorming experimental coletivo para explorar dimensões in/detetáveis da memória em diversos meios e plataformas. O nosso objetivo é propor uma agenda de investigação sobre ‘arquivos impossíveis’ e desenvolver estratégias heurísticas e metodológicas para o estudo futuro de outros exemplos de “impossibilidades patrimoniais”. 

Equipa

Catarina Laranjeiro, Marta Gracinda Pinto Machado, Jorge Miguel Ayán Vila, Pedro Santa Maria de Abreu (IHC-NOVA FCSH; IN2PAST)

Integrados

João Mineiro