Na programação das longas-metragens destacamos antes de mais os filmes de abertura e encerramento.
A cerimônia de abertura oficial irá decorrer no dia 17 de Novembro no Cinema São Jorge, com a exibição do filme Murina (2021). Esta co-produção Croácia, Brasil, EUA, Eslovénia, que conta com Martin Scorsese entre os produtores executivos, é a primeira longa-metragem da realizadora croata Antoneta Alamat Kusijanovic. Vencedor da Câmara de Ouro como melhor primeira obra no Festival de Cannes 2021, o filme é uma obra tensa, onde a luz e a escuridão lutam para se impor no ecrã, e a violência está sempre prestes a explodir. Julija é uma adolescente inquieta que vive com um pai opressivo, Ante, e uma mãe submissa, Nela, numa ilha paradisíaca na costa croata. Quando recebem uma visita de um velho amigo de família com o qual Ante espera fechar um negócio, a tensão explode e o machismo que define as dinâmicas da família e da comunidade é revelado em todas as suas manifestações. Durante um fim-de-semana assombrado pelo desejo e a raiva, Julija, como explica a realizadora: “desafia o poder do pai e, como uma moreia que é capaz de se morder a si própria para se libertar dos pescadores, recusa seguir o caminho que os outros têm definido por ela”.
O filme de encerramento, no dia 20 de Novembro, sempre no Cinema São Jorge, é uma obra coral que nos leva para um universo completamente diferente. Under the Fig Trees (2022), da realizadora franco-tunisina Erige Sehiri, é uma co-produção Tunísia, França, Suíça, Alemanha, Catar que estreou em na Quinzena dos Realizadores em Cannes este ano. Filmado ao longo de um dia, desde a madrugada até ao pôr do Sol, retrata um grupo de raparigas e rapazes que trabalham na colheita de Verão. Cada um tem a sua histórias, as suas ambições, as suas mágoas. Enquanto deambulam entre as figueiras, desenvolvem um diálogo polifónico contínuo, que é ao mesmo tempo pessoal – explorando os seus sentimentos e namorando – e político, porque refletem e se confrontam sobre a falta de oportunidades e liberdade das jovens mulheres, que procuram vias de fuga do meio rural e da organização social tunisina que as oprime.
Entre as longas-metragens destaca-se uma outra ficção da Tunísia, I’ll Go to Hell (2021), de Ismahane Lahmar. Censurado no Egipto, este filme conta a história de uma mulher que quer decidir como viver os últimos dias da sua vida, contra a vontade da família e das imposições religiosas. A família e os laços familiares, às vezes perversos, são também o cerne do filme italiano The Den (2021), de Beatrice Baldacci, que estreou na Mostra Internacional de Veneza em 2021, e The Consequences (2021), de Claudia Pinto, co-produção Espanha, Países Baixos e Bélgica. A projecção de ambos os filmes contará com a presença em sala das realizadoras.
As médias e longas-metragens documentais darão o mote para vários debates. A 17 de Novembro, Erasmus in Gaza (2021), de Chiara Avesani e Matteo Delbò (Espanha) será seguido pelo debate Palestina: quotidianos e resistências; no dia 19, Room Without a View (2021), de Roser Corella (Áustria, Alemanha, Líbano) precederá o Debate TRAVESSIAS, sobre o tema do trabalho doméstico e o tráfico de pessoas; e no dia 20 o documentário português Ary (2021), servirá para introduzir um debate sobre transexualidade no qual irão participar a realizadora Daniela Guerra e o protagonista do filme, Ary Zara Pinto.
A presença portuguesa nesta 9.ª edição dos Olhares do Mediterrâneo - Women's Film Festival conta com diversas curtas-metragens, que incluem obras de realizadoras experientes como Madrugada (2022), de Leonor Noivo, e de jovens no início da carreira que concorrem na secção Começar a Olhar - Filmes de Escola: Hysteria (2021), de Luísa Campino; Mesa Posta (2022), de Beatriz de Sousa; Vergôntea (2022), de Sara Carregado. Estes filmes, juntamente com O Maravilhoso Mundo de Miguel (2021), de Ghada Fikri, co-produção Portugal, Hungria, Bélgica, concorrem para o recém instituído Prémio INATEL para melhor filme de escola português.
Particular atenção merece a programação da especial Olhares do Líbano. Realizada em colaboração com o Beirut International Women Film Festival / Beirut Film Society, esta retrospectiva tem por objectivo apresentar uma selecção de filmes (documentários, ficções, curtas) de realizadoras libanesas produzidos entre 1974 e 2021, de forma a oferecer ao público lisboeta um vislumbre sobre uma das cinematografias mais ricas do Médio Oriente. A selecção Olhares do Líbano arranca na Cinemateca Portuguesa entre 14 e 16 de Novembro, com quatro longas-metragens (ficção e documentário) e duas curtas, e continua a seguir no Cinema São Jorge com mais um documentário e duas curtas-metragens, por um total de nove obras.
Programação na Cinemateca Portuguesa (todas as sessões serão apresentadas por Sam Lahoud, director do Beirut International Women Film Festival):
The Hour of Liberation Has Arrived (1974) e Leila and the Wolves (1984), duas obras extraordinárias e fortemente políticas da realizadora Heiny Srour. The Hour of Liberation Has Arrived, primeiro filme de uma cineasta árabe a ser exibido no Festival de Cannes e distribuido mundialmente – realizado em condições extremamente precárias, transportando a câmara a pé no deserto por centenas de quilómetros – é o único testemunho existente da “Zona Libertada” de Dhofar, no Sultanato de Omã, que nos anos 70 foi o lugar de uma experiência social radical, democrática e feminista, que visava a libertar o povo dos colonizadores britânicos e do emir local. O documentário retrata uma das páginas mais luminosas da história árabe recente e com a sua mensagem democrática e feminista situa-se no coração de questões contemporâneas. Leila and the Wolves (1984) combina encenações, material de arquivo e sequências fiabescas para revelar o papel invisibilizado das mulheres palestinas e das libanesas nas lutas políticas no Médio Oriente ao longo do século XX. Filmado durante 7 anos em condições muitas vezes perigosas, este documentário, para além de afirmar o papel das mulheres nas revoluçãoes, é também uma reflexão sobre o trabalho de documentarista e sobre representação. O filme foi exibido na secção Classici Fuori Mostra da Biennale de Veneza 2022 e foi incluido pela ONU na lista dos filmes imprescindíveis na Década das Mulheres (ambos os filmes são apresentados em cópias digitais restauradas com o apoio do CNC - Centre national du cinéma et de l'image animée. Leila and the Wolves teve também o apoio de La Cinémathèque Française).
A Civilised People (1999), de Randa Chahal (1953-2008), é uma comédia negra e corrosiva sobre a loucura da guerra civil. Violento e absurdo, o filme aponta também à luta de classes que acompanha as divisões sectárias que cobriram de sangue o Líbano durante a guerra e continuam a assombrar o seu presente. O filme foi Selecção Oficial no Festival de Veneza 1999.
Scheherazade's Diary (2013), de Zeina Daccache, é um documentário multipremiado sobre uma experiência de teatro com as reclusas da prisão de Baabda (Líbano). Muitas destas mulheres foram presas por se terem defendido de abusos, e no laboratório teatral desenvolvido com a realizadora denunciam com uma veia tragicómica a raís social e estrutural da sua condição.
As curtas em programa levam-nos no registo poético mas sempre engajado para o Líbano contemporâneo, onde às marcas deixadas pela guerra civil se sobrepõem os desastres ambientais recentes. Barakat (2020), de Manon Nammour, é uma reflexão sobre memória e lugares, uma declaração de amor por Beirute e uma denúncia da transformação do centro da cidade num monumento vazio ao luxo. Then Came Dark (2021), de Marie-Rose Osta, é um conto sombrio, em que uma árvore arrancada e arrastada como um cadáver numa floresta nas montanhas simboliza a destruição da natureza e as suas inevitáveis consequências.
Programação Olhares do Líbano no Cinema São Jorge:
A longa-metragem documental Beirut: Eye of the Storm (2021), de Mai Masri, acompanha quatro jovens mulheres artistas enquanto vivem e documentam um período turbulento na história libanesa mais recente, desde as revoltas de Outubro de 2019 contra o regime no poder, até ao confinamento devido à Covid-19. Para chegar a 4 de Agosto de 2020, quando as enormes explosões no porto desfiguraram mais uma vez o vulto da cidade, matando centenas de pessoas e ferindo milhares. As revoltas de 2019 são também o ponto de partida da curta-metragem Roadblock (2020), de Dahlia Nemlich, em que Farah e o seu namorado franco-libanês são mandados parar por milicianos armados num posto de bloco improvisado, como se a guerra civil nunca tivesse acabado. Finalmente Warsha (2021), de Dania Bdeir, oferece uma perspectiva decididamente contemporânea, e ao mesmo tempo surreal, sobre Beirute, vista a partir de cima de um guindaste, no sonho de liberdade queer de um refugiado sírio.
Voltando à programação geral, em 2022 os Olhares do Mediterrâneo - Women Film Festival apresentam como já é tradição uma sessão especial para famílias, com filmes para crianças entre 6 e 12 anos, no domingo (no Cinema São Jorge), e o atelier de cinema para pais e filhos (4-7 anos) Olhares em Pequenino, na manhã de sábado.
Para os adultos, as actividades paralelas irão incluir, para além dos debates, uma masterclass pela realizadora Heiny Srour (a confirmar) no dia 17 de Novembro, o workshop Unraveling Freedom, organizado pela plataforma criativa libanesa Efata - Ateliers Nomades, no dia 19, e o concerto da banda Malotira, a seguir à sessão de encerramento no dia 20.
Olhares do Mediterrâneo - Women Film Festival é o primeiro e mais antigo festival de cinema no feminino em Portugal, e é o único dedicado à cinematografia da bacia do Mediterrâneo. O Festival é um projecto do grupo Olhares do Mediterrâneo e do CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia).