Recordar uma doença esquecida: uma visão histórico-antropológica da Tripanossomíase Humana Africana (doença do sono) em Angola, ca. 1900-presente

Investigador responsável: Jorge Varanda
Grupo de investigação: Governação, Políticas e Quotidiano
Tipo de projeto: Projeto nacional
Estado: Concluído
Palavras-chave: Doença do sono | Programas de saúde | Colonial | Pós-independência | Continuidades e rupturas em respostas da população


Instituição principal: CRIA
Instituições participantes: Instituto de Combate e Controlo das Tripanossomíases (ICCT); Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT/UNL)
Financiamento: FCT
Referência: PTDC/AFR/100646/2008
Data de início: 15-01-10

Mais informação:

Resumo

Este projecto de investigação centra-se nos programas de saúde contra a tripanossomíase humana africana (THA) em Angola, desde 1900 até ao presente. A incidência desta doença (conhecida como doença do sono) em Angola não foi tratada pelas ciências sociais, hiato que esta investigação pretende colmatar. Esta pesquisa continua o trabalho previamente realizado sobre as missões contra doença do sono da Companhia de Diamantes de Angola (Diamang) 1917-1975, e pelo desafio lançado pelo africanista Frederick Cooper e pela antropóloga Ann Stoler para revelar qual o legado colonial nas linguagens da saúde e da doença, e no acesso aos cuidados de saúde em populações contemporâneas. (Varanda, 2001,2004, 2007; Cooper and Stoler, 1997) Para atingir este objectivo, este projecto pretende ser interdisciplinar, abarcando exemplos da história da medicina, caracterização epidemiológica e problematização antropológica. O traço diacrónico subjacente a este estudo, conjuntamente com a abordagem analítica dos diferentes níveis em jogo – da metrópole/global ao local, da legislação e programas às práticas médicas, da imposição colonial da biomedicina e medidas de saúde pública pós-independência às tensões, negociações e respostas e representações da população local sobre doença, vector (mosca tsé-tsé), e manifestações neurológicas da HAT nos doentes – proporcionam um terreno fértil para a reflexão sobre continuidades e rupturas entre os dois contextos. Das espécies de tripanossomas que infectam o homem, este projecto centra-se na incidência do Tripanossoma brucei gambiense, causador da forma mais crónica da doença que, quando não tratada, causa a morte em 2 ou 3 anos. O primeiro caso registado de THA em Angola data de 1870, enquanto que a primeira missão de estudo da doença remonta a 1901. A doença alastrou, afectando mais de dez mil pessoas nos anos 40. Foi criado um serviço estatal especializado para detectar a THA e paulatinamente reverter este quadro dantesco. Nas vésperas da independência a THA tinha sido praticamente eliminada, registando-se apenas três casos. Contudo, os trinta anos de guerra civil, com as suas consequência devastadoras e a falta de campanhas regulares levaram à re-emergência da doença que, em 1999, ultrapassava os 8000 casos. Apesar de um declínio constante entre 2002 e 2006, ainda se registaram 11848 novos casos (Josenando, 2007). Com o vector presente em 14 das suas 18 províncias, e com 7 destas províncias classificadas como endémicas em relação à doença do sono, Angola encontra-se no topo dos países mais atingidos pela HAT. A tripanossomíase afecta sobretudo regiões rurais e pobres nos países africanos em vias de desenvolvimento, factores que impediram os avanços no diagnóstico e no tratamento (Atougouia,1999). A persistência de acções de combate e as terapias, semelhantes àquelas usadas há cem anos, conferem ainda maior relevância a este projecto, uma vez que pouco mudou. Esta investigação caracterizará os programas de saúde (com as suas acções activas e passivas) de combate à tripanossomíase, levados a cabo durante os períodos colonial e pós-independência. Pretende desvendar a evolução dos diagnósticos e tratamentos, desde o início do século XX, e as redes que os trouxeram até Angola, bem como a evolução da relação entre acções passivas (quando os pacientes procuram ajuda nos centros de saúde) e prospecção activa (campanhas móveis de pessoal de saúde que periodicamente se deslocava através de uma área circunscrita que lhes era adjudicada) e o desenvolvimento do combate anti-vector. Este estudo pretende ainda conhecer as representações da doença e do vector encontradas entre as populações locais, as lógicas da reacção dos indivíduos face a técnicas de diagnostico invasivas, tratamento com medicação tóxica e medidas de acompanhamento também intrusivas. Deste modo, pretende-se contribuir para uma análise mais sólida dos sucessos de fracassos dos programas de saúde e das práticas médicas. O presente estudo apela a uma compreensão mais complexa sobre a prestação de cuidados de saúde, ao longo do tempo, e a persistência da história, encontrada no presente em África, particularmente em Angola. Procura compreender as semelhanças e diferenças entre dois contextos históricos na abordagem aos pacientes e suspeitos de infecção, no pessoal de saúde ou nas redes de conhecimento, tecnologia e produtos. Lançando luz sobre a relação entre os contextos colonial e pós-independência, esta investigação contribui para uma percepção mais complexa e incisiva do problema da doença do sono e das estratégias elaboradas para a sua detecção, em Angola. Como tal este projecto contribui para uma melhor compreensão do Império Português e da ´sua´ medicina colonial. Ao compreender como as respostas dos Africanos face aos programas biomédicos são moldados pela dureza das medidas do diagnostico e follow-up como punção lombar, a toxicidade dos tratamentos, espera-se iluminar como velhos problemas podem ser evitados e, paralelamente, como novas e/ou velhas soluções podem ser escolhidas.

Investigadores do CRIA

IDNomeFunçãoProjTítuloTipo de projetoEstado
pub83*Jorge VarandaInvestigador Responsávelproj6*Recordar uma doença esquecida: uma visão histórico-antropológica da Tripanossomíase Humana Africana (doença do sono) em Angola, ca. 1900-presenteProjeto nacionalConcluído
pub141*Mónica SaavedraInvestigadorproj6*Recordar uma doença esquecida: uma visão histórico-antropológica da Tripanossomíase Humana Africana (doença do sono) em Angola, ca. 1900-presenteProjeto nacionalConcluído
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InvestigadorFunçãoInstituiçãoProjOutrosTitulo_PT
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